Shoujo Kakumei Utena


Shoujo Kakumei Utena é uma obra que compartilha temáticas profundas sobre feminismo, identidade e amadurecimento. Para isso, o anime faz um paralelo e desconstrói os arquétipos de idealismo e pureza presentes no livro "O Pequeno Príncipe", desafiando as convenções de feminilidade passiva da demografia shoujo e questionando o mundo adulto ao subverter o ideal de nobreza, comumente associado a imagem do "príncipe" que é visto como o salvador e protetor dos mais fracos. 

O formato narrativo do anime é episódico e dá destaque para um desenvolvimento lento do plot da história que é construída sobre um ciclo de repetição temática, ou seja ele apresenta primeiro o perfil psicológico dos personagens e mantém o interesse do público através do suspense e mistério em torno das motivações deles, que são reveladas gradativamente ao longo da trama. 

À vista disso, o anime conta uma história que subleva e critica a opressão sistêmica, o patriarcado e as normas de gênero. Anthy Himemiya é a personificação da mulher que é tratada apenas como um troféu e é alvo de constante abusos perpetrados pela obsessão masculina de personagens que se escondem atrás da fachada de nobreza e cavalheirismo, mas continuam a objetificar e manipular mulheres em torno dos seus próprios interesses. 

A Academia Ohtori é muito mais do que um cenário comum de uma escola qualquer, ela representa a sociedade, as regras e o machismo que oprime jovens e tenta culpar as vítimas por sua própria situação. 

E o mais importante de tudo, o anime rompe com a fantasia do príncipe do conto de fadas mostrando que no fim das contas ele é apenas mais uma figura de poder que coloca as mulheres em posições de passividade e dependência. E é por isso que Utena fica completamente impactada ao conhecer o príncipe, ela não quer se casar com ele, mas quer se tornar ele. Ou seja, ela deseja quebrar o ciclo de opressão e alcançar a verdadeira liberdade no qual as mulheres não são pré-definidas pelo gênero, mas reconhecidas por suas individualidades, capacidades e experiências pessoais. 

Pode até parecer que a história é lenta e não tem pé nem cabeça, mas a incorporação de elementos surrealistas faz todo sentido e por meio dessa linguagem aprofunda em muitos temas sociais usando símbolos e metáforas visuais para representar a sociedade opressora e preconceituosa. 

Além disso, a narrativa faz uma reflexão sobre a transição do tempo ao reforçar a ideia de que os personagens estão presos a um ciclo repetitivo de estagnação que os impedem de avançar na suas vidas, e portanto precisam quebrar a casca o ovo e "revolucionar o mundo", ou seja, todos precisam amadurecer mais cedo ou mais tarde, e finalmente deixar a infância para trás. 

Aviso importante, o anime trata de tópicos extremamente pesados, tornando-se uma trama densa sobre trauma, abuso, estupro, pedofilia e incesto. Muitas cenas são sutis na abordagem dessas temáticas, frequentemente usando elementos visuais dos contos de fada para disfarçar e ao mesmo tempo destacar a crueldade dos personagens antagonistas. 

Em última análise, a complexidade intelectual de Shoujo Kakumei Utena desmitifica a visão que muitos tem de obras shoujo, mostrando que a verdadeira felicidade não se resume apenas na busca convencional do amor romântico, mas também acontece quando você rompe com os moldes tradicionais de sociedade.

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